Eu não agüento mais, eu não agüento mais, eu não agüento mais. Poderia encher milhões de linhas escrevendo que não agüento mais, mas isso não me ajudaria a agüentar. Mas obrigada, obrigada. Obrigada por estar lendo isso que eu mal comecei a escrever. Obrigada por ler o quanto eu não agüento mais e, mesmo que você não entenda, mesmo que eu não consiga dizer o que ou porque eu não agüento mais, obrigada. Obrigada por me agüentar, porque nem eu me agüento mais.
Na verdade eu não sou boa em traduzir o que estou sentindo ou pensando. Nunca fui e não é agora que serei. Mas o que estou tentando explicar é que existe um buraco enorme em mim, e que hoje eu chorei no ônibus porque tocou uma música que mexeu comigo. Ontem eu também chorei caminhando pela rua porque eu passei por um lugar que mexeu comigo. Anteontem eu chorei antes de sair de casa porque eu me lembrei de várias coisas que mexeram comigo. Agora eu estou chorando por tudo isso junto.
Eu queria voltar, voltar, voltar no tempo. Eu não agüento mais os novos lugares que eu tenho que freqüentar, os novos caminhos, as novas músicas. E eu não agüento mais ter que agüentar as novas pessoas.
Eu deveria estar feliz, talvez. Mas não consigo. Não é pelo cansaço, não é pelas tarefas, é pelas pessoas, é pelos lugares, é pelas músicas, é pelas palavras.
Eu acordo de manhã com preguiça de abrir os olhos. Com preguiça de escolher uma roupa, de tomar café da manhã. Tudo parece ser igual. As coisas não vão voltar a ser como eram antes, ninguém mais será igual, tudo vai mudar. Tudo está mudando. Já mudou? Quem sabe.
Para ser feliz, é preciso estudar, se esforçar, manter bons relacionamentos e amar. A única coisa que eu consigo fazer é amar. Mas nem isso eu consigo fazer direito. Talvez por isso eu não consiga estar feliz. A pergunta é: ser ou estar? E ser feliz, eu sou? Hoje não, porque eu não agüento mais.
Eu entro no ônibus de manhã e vejo as mesmas pessoas de ontem, que serão as mesmas de amanhã. Eu não gosto delas, desculpe. É errado isso, devo amar ao próximo. Mas eu as amo, amo sim. Apenas não gosto delas. É diferente.
Eu sinto vontade de morrer um pouquinho, de chegar em casa pra não sair nunca mais. Eu sinto vontade de fazer falta de verdade também. Você sente falta de mim? Eu sinto falta de você e eu nem sei quem você é. Eu sinto falta de tudo. De tudo o que eu já tive e de tudo o que eu não tenho e nem nunca terei.
Mas cadê tudo aquilo que eu sonhei um dia? Cadê tudo aquilo que eu imaginei? Não existe. Nada disso existe: vivemos somente esperando. A felicidade é a espera da felicidade. Eu não espero mais nada agora, porque tudo o que eu esperaria agora já passou. Eu me enganei tanto comigo mesma que não agüento mais me permitir.
A falta de esperança faz eu me encher de esperança: e se eu morrer amanhã? Quanto egoísmo. É que eu perdi o encantamento, a magia, o gás que tive até aqui. Cansei de sonhar o dia inteiro com coisas que quando acontecem, perdem a graça. Cansei de sonhar com minha vida inteira enquanto olho a paisagem pela janela (pela janela do ônibus, é claro). Ficou um buraco. Um buraco enorme em mim. Não sei pra onde ir. Quem não sonha não sabe onde quer chegar.
Eu não agüento mais. Um buraco enorme em mim: uma sensação de falta, de pouco, de vazio, de abandono. Eu me entregaria ao novo, mas não posso me entregar porque não me tenho.
Quantas coisas eu já perdi por não estar madura o suficiente pra agüentar as mudanças? Quantas pessoas eu já perdi por estar afundada nos meus próprios problemas deixando pra depois? “Mês que vem nós saímos”. Não, não saímos. Tantas pessoas importantes pra mim que eu perdi por morarem muito longe, por terem se tornado muito diferentes de mim, por eu não ter agüentado. E se elas morrerem amanhã? E se eu morrer amanhã? Todos os meus amigos vão morrer ou me deixar antes. Todos. Mas e os que eu deixei? E se eu morrer antes do mês que vem? A vida é a morte diária. As pessoas sempre vão embora. Essa é uma das piores coisas do mundo. E as pessoas sempre chegam também. Mas hoje, essa também é uma das piores coisas do mundo.
E não dá pra fugir. Por mais que eu não agüente, acabo agüentando, porque a estrada não tem volta e eu não agüento mais não agüentar.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
"Eu deveria estar feliz, talvez. Mas não consigo. Não é pelo cansaço, não é pelas tarefas, é pelas pessoas, é pelos lugares, é pelas músicas, é pelas palavras."
ResponderExcluirTá aí mais um texto com o qual me identifico!